segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

DEUSA HERA



Hera para os gregos, Juno para os romanos, a Rainha do Olimpo, governava junto ao seu marido Zeus. Ela era filha de Cronos e Réia, a Grande Mãe deusa titã e foi criada na Arcádia. Teve como ama as Horas, ou as Três Estações.
O pouco que sabemos, vem da "Ilíada" de Homero, onde ganha fama de esposa ciumenta. É que em culturas patriarcais antigas, os homens tinham por regra, satirizar toda e qualquer mulher que alcançava algum poder.
Se Hera foi uma mulher disposta a contendas conjugais, realmente é porque ela estava coberta de motivos. Zeus era um homem libertino, promíscuo e infiel. Praticamente nenhum de seus filhos foi concebidos dentro dos limites de seu casamento oficial. O único deus que nasceu da união legítima de Zeus e Hera foi Ares, o deus da guerra, o mais medíocre dos deuses gregos. Visualiza-se aqui uma sociedade contemporânea, configurada em uma família patriarcal. Zeus é o pai, o chefe, o "cabeça do casal". Muito embora os conflitos persistentes, a supremacia de Zeus é escancarada.
Zeus, pai dos deuses e dos homens era um nórdico. Ele e sua paternidade de Wotan (Odim), vieram do norte junto com demais tribos, cujo sistema social era patrilinear. Já Hera, representa um sistema matrilinear. Ela era a Rainha de Argos, em Samos e possuía no Olimpo um templo distinto de Zeus e anterior a este. Seu primeiro consorte foi Heracles. Quando os nórdicos conquistadores chegam a Olímpia, massacram a população e concedem às mulheres a lúgubre escolha entre a morte ou a submissão à nova ordem. Hera reflete, portanto, uma princesa nativa que foi coagida, mas não subjugada por este povo guerreiro. Assim, sabe-se agora o devido motivo porque o único filho de Zeus e Hera tenha sido Ares, o deus da guerra. Realmente Zeus e Hera viviam em "pé de guerra” dentro do Olimpo.
Hera foi extremamente humilhada com as aventuras de Zeus. Ele desonrou o que ela considerava de mais sagrado: o casamento. Favoreceu seus filhos bastados em detrimento de seu legítimo e pisoteou seu lado feminino quando ele mesmo deu à luz a sua filha Atenas, demonstrando que não precisava dela nem para conceber.
Nos dias atuais, embora a mulher através de árduas penas tenha conquistado seu espaço, os casamentos não se modificaram tanto assim. Permanecemos em uma sociedade patriarcal e o casamento ainda é considerado como uma instituição de procriação.
As mulheres continuam a sofrer violências domésticas e profissionais e a busca do tão almejado casamento por amor com satisfação sexual plena é castrado pelas concepções obsoletas cristãs. Mas, muito embora todas estas limitações e deficiências do casamento, a mulher sente-se profundamente atraída por ele. Romanticamente todas sonham em compartilhar a tarefa de criar seus filhos e estabelecer uma unidade chamada "família".
Na Arcádia, ao ser celebrada como a Grande Deusa dos tempos pré-homéricos, Hera possuía três nomes. Na primavera era Hera "Parthenos" (Virgem). No verão e no outono tomava o nome de Hera "Teleia" (Perfeita ou Plena) e no inverno chamava-se Hera "Chela" (viúva). Hera, a antiga deusa tríplice não tinha filhos, de modo que, os mistérios da maternidade não estão aqui simbolizados, mas sim os mistérios das fases da mulher "antes" do casamento, na "plenitude" do casamento e "depois" na viuvez. As três facetas de Hera também se ligam às três estações e às três fases da Lua.
Hera renovava anualmente a sua virgindade banhando-se na fonte Cânata, perto de Argos, local consagrado especialmente a ela. Assim, vemos que ela traz em si o arquétipo da eterna renovação, semelhante ao ciclo da Lua em suas fases. Através deste ato, ela une o ciclo lunar, o ciclo menstrual e o ciclo anual da vegetação.
O seu mito era associado à vaca, o que revela o seu vínculo com a fecundidade e com o nascimento. Seus outros símbolos são a via-láctea, o lírio e a iridescente pena da cauda do pavão, que continha olhos, simbolizando a cautela de Hera.
A vaca sempre foi associada a deusas da Grande-Mãe como provedoras e nutridoras, enquanto a via-láctea, em grego gala significa "leite da mãe", reflete uma crença anterior às divindades olímpicas, de que ela surgiu dos seios da Grande Mãe. Isso depois se torna parte da mitologia de Hera, que conta que o leite que jorrou de seus seios formou a via-láctea. As gotas que caíram sobre a Terra tornaram-se lírios, símbolo do poder de autofertilização feminino da deusa.

Deusa Hera

19 de junho é o dia de todas as Heras, celebrando a Deusa interior, representada pela Deusa Hera, a padroeira das mulheres.
Hera
"Filha de Chronos e Rhéa, irmã e esposa de Zeus, Hera (Juno para os romanos) é a grande divindade feminina do céu, do qual Zeus é o grande deus masculino.
Seus atributos correspondem quase exatamente aos de Zeus, embora revestidos, por se tratar de uma deusa, de forma mais branda.
Os poetas representam-na dotada de uma beleza austera e grave, de grandes olhos calmos e modestos, e , principalmente, de braços brancos, roliços e formosos, que constituíam o seu principal atributo físico.
As núpcias de Zeus e Hera foram celebradas na ilha de Creta, próximo ao rio Thereno.
Para torná-las mais solenes, foram convidados todos os deuses e semi-deuses.
Atenderam todos ao convite, com a exceção da ninfa Cheloné, que chegou atrasada devido às sandálias lhe machucarem os pés.
Hera, indignada com este atraso e atribuindo-a a pouco caso com o casamento, transformou a ninfa em tartaruga.
Hera foi exemplarmente casta e fiel a seu esposo, sendo venerada como o símbolo da fidelidade conjugal.
Esta virtude se realça na lenda de Ixion, rei dos Lápitas, o qual, convidado a participar do banquete celeste, ousou cortejar a rainha dos deuses.
Ela, porém, advertiu seu marido e este, para provar a má fé do hóspede, forjou com uma nuvem uma figura idêntica à de Hera e surpreendeu Ixion enlaçando amorosamente a nuvem e dizendo palavras ternas.
Para castigar este gesto insensato, Zeus atirou Ixion aos infernos, onde ele foi amarrado por cordas feitas de serpentes a uma roda que gira incessantemente.
Este atributo moral tornou Hera a protetora das mulheres casadas, motivo pelo qual recebeu o nome de Hera Gamelios; e daí, por extensão, igualmente protetora dos partos e dos recém-nascidos.
Além disso, ela velava pelos deveres dos filhos para com os pais, principalmente para com a mãe.
Uma lenda, contada por Heródoto, nos mostra como ela sabia recompensar a piedade filial.
A sacerdotisa de um templo de Hera, na Argólida, tinha dois filhos, Cleobis e Bitão.
Devia ela, como exigia o ritual, se dirigir de carro para o altar, mas à hora da cerimônia os bois ainda não haviam voltado do pasto.
Vendo sua mãe aflita, Cleobis e Bitão se atrelaram ao carro e puxaram até o templo.
Orgulhosa do gesto de seus filhos, o qual provocara o aplauso geral de toda a população e a particular inveja das mulheres, pediu a sacerdotisa que Hera lhes concedesse como recompensa aquilo que os deuses podiam dar de melhor aos homens.
No dia seguinte Cleobis e Bitão morreram.
Esta lenda melancólica significa ser a vida uma provação e a morte um favor dos deuses.
Zeus e Hera não viviam, no entanto, em boa harmonia; são, ao contrário, célebres as querelas que frequentemente irrompiam entre eles.
Por mais de uma vez foi Juno espancada e maltratada por seu esposo, devido ao seu gênio obstinado e ao seu humor azedo.
Estas querelas são alegorias para representar as perturbações atmosféricas.
Assim, enquanto Zeus seria o ar puro e o firmamento sereno, Hera seria a atmosfera carregada, obscura e ameaçadora.
Eram estas rusgas as mais das vezes, provocadas pelas infidelidades de Zeus, que exercitavam o ciúme e o ódio de Hera.
De uma feita, enfurecida, jurou ela abandoná-lo e, deixando o Olimpo, retirou-se para a ilha de Eubéa.
Após uma longa espera, começou Zeus a sentir saudades dela, mas, não querendo abaixar-se a lhe implorar perdão, urdiu um estratagema para fazê-la voltar.
Assim, fez espalhar que ele iria desposar uma bela ninfa, com a qual ele iria percorrer de carro a ilha.
Preparou, então, um fantoche de madeira, cobriu-o de ricas roupagens e joias e colocou-o na assento de um magnífico carro.
Hera, que ouvira falar do novo casamento de Zeus, vai, inflamada de indignação, ao encontro de sua rival e, avistando-a, sobre ela se atira, furiosa, lacerando-lhe as roupas.
Aparece então o lenho nú e, em meio a grandes risadas, celebraram os deuses a sua reconciliação.
Hera, que experimentava pelas mulheres inconscientes e culpadas uma profunda aversão, perseguiu ferozmente, não só as concubinas de Zeus, como também os filhos nascidos desses amores.
Se, posteriormente, foi Hera identificada com Zeus, como deusa do céu, primitivamente representava a Terra-Mãe.
Confirmam essa suposição a fato dela ser a deusa propícia aos nascimentos e, principalmente, o seu característico "casamento sagrado" com Zeus.
Hera inspirava uma veneração misturada de temor e seu culto era quase tão solene e difundido quanto o de Zeus, sendo principalmente adorada nas cidades de costumes austeros:
Argos, que parece ter sido o centro primitivo, Micenas, Esparta.
Inimiga dos costumes dissolutos da Ásia, protegeu constantemente os gregos durante a Guerra de Tróia.
No primeiro dia de cada mes, imolava-se uma porca; nunca se sacrificavam vacas, porque tinha sido sob a forma desse animal que ela se escondera no Egito, por temor do monstruoso Typhão.

O tipo de Hera foi fixado por uma admirável estátua de ouro e mármore, que, no templo de Argos, tinha sido esculpida por Policleto de Licyone, contemporâneo de Fídias; infelizmente, não se conhece essa estátua, senão por uma descrição deixada pelo autor grego Pausânias.
Seus traços são de uma mulher robusta, já completamente formada mas ainda jovem, sentada sobre um trono, segurando com uma das mãos uma semente de romã, símbolo da fecundidade, e com a outra o cetro encimado por um cuco, pássaro símbolo da vegetação primaveril."

Deusa Hera

A Deusa do Casamento.
Hera, a esposa do mais poderoso habitante do Olimpo.
Para conquistar Hera, Zeus apareceu para a deusa na forma de um cuco. Como era inverno, Hera se apiedou do bichinho que estava ensopado e congelado de frio. Pegou a ave cuidadosamente e a colocou junto ao seio para esquentá-la.
Imediatamente Zeus reassumiu sua forma normal e tentou amorosamente possuir Hera. Mas a união só foi consumada quando prometeu casar-se com ela.
A vida do casal era uma contínua discussão doméstica. Hera tentava em vão controlar a infidelidade do marido mas fracassava sempre. E este, a punia espancando-a ou amarrando-a. Por vezes, a fazendo pender do céu.
Por fim, se tornou submissa e dirigiu sua cólera às mulheres com quem Zeus namorava e aos filhos delas. Sua vingança lhes causava a morte, o sofrimento, a prisão ou o exílio.
Hera representa a maturidade e a dignidade. É a deusa das mulheres, do casamento e da maternidade. Teve quatro filhos com Zeus: Ares, Hephaestus, Ilythia e Hebe.
É chamada de “deusa do céu” e os templos onde ela era venerada eram construídos no topo das montanhas mais altas a fim de estar o mais próximo possível dela. Seu equivalente na mitologia romana é Juno.
A figura de Hera para o dia de hoje significa que embora não se aprove uma situação, é melhor que a deixemos seguir seu curso natural. Como se disséssemos: não há necessidade de perturbar a ordem.
Celebra-se a Deusa Hera no dia 19 de junho criando um ambiente agradável em nossa casa seja com música, uma vela aromática ou um incenso. Mentalize fortalecimento interior e crescimento espiritual. Nada é mais importante do que uma família bem cuidada e alimentada.

Deusa Hera

O arquétipo de Hera perdura em cada mulher que se casa acreditando que o matrimônio é a consumação da satisfação feminina. Fiel, apesar dos maus-tratos de Zeus, ciumenta infatigável que vaga pelos recantos a fim de coletar evidências da lascívia de seu marido, Hera é a deusa privada de todos os seus atributos, exceto do dom da profecia, que exerce através da boca de humanos e de animais para se vingar dos filhos e das muitas amantes de Zeus, muito particularmente de Héracles, o mais odiado de todos. À primeira vista, seu vínculo matrimonial parece uma relação de amor e ódio; porém, na realidade, cultiva a posse com a argúcia das mulheres que, escudadas em seus direitos, espiam, humilham, vigiam, perseguem e chantageiam os homens mediante pressões que começam com prantos sutis e vão-se transformando em ciclos de fúria e recriminações, até coroar com o rancor uma suposta debilidade atribuída à traição.
Padroeira das mulheres casadas, seu mundo adquire sentido em função do esposo. Sobre Hera recaem as virtudes e superstições do protótipo que sustenta o lar com o ideal do marido bem-sucedido, reconhecido por seu poder e notável em seu trabalho. Convencida de que a união matrimonial é sagrada, Hera vive em cada mulher que permanece à sombra do marido, rendida a seus laços indivisíveis, obcecada, magoada e furiosa. Manipuladora, exerce seu mando como adversária na cama, mas ao sofrer a aspereza moral frente a paisagem devastadora provocada por seus ciúmes, suporta o castigo muito mais além do que exigiria o respeito, ainda quando Zeus reconhece sua astúcia para cegá-lo diante de um erro evidente, como ocorre com relação aos heróis homéricos na Ilíada. Sagaz e espertíssima, lança palavras furiosas, jura, promete, ameaça ou afronta com altivez sem par; os outros deuses julgam-na ou intervém em seu relacionamento, seja a favor, seja contra, e sempre acaba rendida à poderosa vontade de seu marido. Contra sua natureza impulsiva, inferior à do belicoso Ares ou à da batalhadora Atena, inferior inclusive à natureza do vigoroso Héracles, Hera opõe uma atitude compreensiva, em conformidade à sua hierarquia, e não é raro encontrá-la representando um papel de intermediadora social, até mesmo quando adota as piores monstruosidades de Equidna ou Tífon, que no momento apropriado seriam utilizadas contra Héracles.
Hesíodo lhe atribui a criação do Leão de Neméia, um monstro invulnerável, nascido dos mesmos Equidna e Tífon, assim como da perversa Hidra, a venenosa serpente aquática de muitas cabeças que vivia nos pântanos de Lema, perto de Argos, a qual, por sua vez daria à luz a Quimera, uma criatura tricéfala de pés ágeis, violenta e tão enorme quanto terrível. Cada vez que uma cabeça da Hidra era cortada, brotava do coto outra ainda pior. Tanto ela como o leão seriam vencidos por Héracles e Iolau, seu companheiro de armas, como parte dos Doze Trabalhos. Iolau queimava em vão os cotos da Hidra com tições ardentes, enquanto Héracles, longe de se dar por vencido, molhava suas flechas no próprio sangue da inimiga a fim de tomar incuráveis suas feridas e derrotá-la junto com o caranguejo que a auxiliava por ordem da deusa. Esmagado pelos pés do herói, o caranguejo acabaria sendo transformado na constelação de Câncer. Quimera, por sua vez, seria mais tarde abatida por Pégaso, colaborando com o valente Belerofonte.
Diferentemente da criminosa Medéia, que assassinou sua rival e a seus próprios filhos antes de abandonar para sempre o marido, Hera se confinava na obscuridade a ruminar seus fracassos ou empreendia longas viagens a fim de recuperar a confiança perdida em consequência de suas torpezas. De volta a seu assento mítico, ali ficava outra vez, entronizada, ciumenta de seus domínios, cuidadosa e furibunda, governando disfarçadamente o marido, conjeturando para confirmar suspeitas, endurecendo as regras de um jogo doméstico astucioso, ofuscada em sua posição e guiada pelos preconceitos da vida em comum, ainda que os fatos provassem que suas atitudes eram a rota mais segura para sua própria infelicidade.
Filha mais velha de Cronos e Réia, Hera nasceu na ilha de Samos, onde Cronos devorava vivos a seus filhos assim que saíam do ventre sagrado, para que nenhum deles pudesse obter a dignidade real que ele ostentava sobre os imortais. Seu pai, o estrelado Urano, e sua mãe, a Terra, haviam profetizado que um de seus descendentes o destronaria. Em seu destino já estava pré-traçada a condenação de sucumbir pelas mãos de Zeus e, sempre ã espreita e com a mente astuta, o Tempo devorava um após o outro seus filhos assim que Réia os dava à luz, até que, antes de parir o último deles, o grande Zeus, a deusa buscou a proteção de seus pais para salvá-lo. Abrigada pelo cair da noite, Réia foi enviada por Urano e Gaia à terra de Licto, onde nenhuma criatura projeta sombras, para que pudesse parir e ocultar o recém-nascido em uma caverna escarpada rodeada por árvores, nas faldas do monte Egeu, de onde se atingiam as entranhas da Terra.
Ali, depois de ser banhado no rio Neda, o pequeno Zeus permaneceu em Creta, vigiado pela avó, onde foi criado com leite e mel em um berço de ouro pela ninfa-cabra e pela ninfa-freixo, ao lado do cabrito Pan, seu aliado e irmão adotivo. Sua infância transcorreu em meio a hábeis artimanhas para que seu pai não o encontrasse, e dali só saiu quando finalmente se achava preparado para vencê-lo.
Vítima da argúcia de Réia, Cronos engoliu uma pedra envolta em lençóis crendo, assim, que triunfaria sobre os ditames do Destino. Porém, descobriu o logro e pôs-se a perseguir o menino durante o mítico rastreio que não chegou a um término até que Zeus, disfarçado de seu copeiro e seguindo os conselhos de Métis, misturou sal e mostarda à sua bebida doce para que vomitasse, ilesa, a multidão de filhos que o Tempo conservava em seu estômago. Foi essa pedra emblemática, antes mesmo que seus irmãos e irmãs mais velhos, a primeira coisa a ser expelida por Cronos durante sua legendária náusea, e a que definiu a posterior batalha contra os Titãs, que entronizou os olímpicos, a segunda e mais perdurável geração de deuses.
Logo a seguir, por haver libertado os ciclopes que Cronos havia confinado no Tártaro, estes recompensaram a Zeus com o trovão, o relâmpago e o raio, até então ocultos entre as "rugas da Terra", ou de Gaia. Hades deu-lhe o elmo da invisibilidade e Poseidon ofereceu um tridente àquele que viria a ser o Pai do Céu. Os gigantes de cem braços, no mais aceso da batalha, lançaram pedras contra os demais titãs, e os gritos do cabrito Pan puseram-nos em fuga para selar a vitória.
Desterrados para uma ilha longínqua, os titãs nunca mais vieram perturbar a Hélade, porque Atlas, seu general, foi condenado a carregar o firmamento nas costas, um castigo exemplar. Zeus, por sua parte, apoiou-se em seus dons supremos a fim de governar sobre mortais e deuses, e fez venerar a pedra sagrada no santuário de Delfos, onde se afirma que permanece até o dia de hoje.
Onde termina o mito de Cronos - que eleva o de Zeus -, começa o de uma Hera que não era ninguém até que se casasse com o Pai dos Céus. Dela se diz que suas amas foram as estações do ano e que, na Arcádia, foi educada por Temeno, o filho da terra Pelasgo, ou Antigüidade. Talvez tenha sido em Cnossos, ou no cume do Thornax, na Argólida, que Zeus a tenha cortejado, disfarçado de cuco, uma ave trepadora que costuma colocar seus ovos nos ninhos de outros pássaros. Ardiloso e matreiro, tal como perdiz arrastava-se graciosamente sobre o solo, ocasião em que ela acalentava-o em seu seio. Hera conversava com ele e lhe confiava seus sonhos até que, de repente, Zeus assumiu sua verdadeira forma para violá-la, enchendo-a de vergonha e desespero.
No caso típico da jovem que, em meio a atrozes conflitos sentimentais tem de se casar para compensar a perda de sua virgindade, Hera, uma donzela idealista, se converte em esposa e mãe por excelência. Apesar da fúria de Réia, que previa muito bem a luxúria de seu futuro genro e que, por opor-se à união, foi também violentada por Zeus - desta vez sob a forma de uma serpente -, todos os deuses vieram com presentes para participar dos esponsais. De Gaia, recebeu a célebre árvore das maçãs de ouro, que Hera plantou em seu jardim, no monte Atlas, para ser vigiada pelas Hespérides. Foi devido a uma dessas maçãs, atirada com raiva por Éris entre as deusas rivais, que surgiu a expressão "pomo da discórdia", citada pela primeira vez nos cantos de Homero, em um dos episódios centrais da Guerra de Tróia.
Hera e Zeus passaram sua noite de núpcias na ilha de Samos. Foi uma longa noite de trezentos anos, semeada de altercações, intrigas e humilhações recíprocas, da qual Hera saiu para se banhar, buscando recuperar a virgindade na fonte de Canatos, que ficava nas proximidades de Argos, onde foi erguida uma estátua em que aparecia sentada em um trono de ouro e de marfim. Em meio a certas dúvidas sobre a origem verdadeira da gravidez de Hera, o mito a atribui ao fato de a deusa ter tocado em uma determinada flor; dela nasceram Ares, o deus da guerra, e talvez também sua irmã gêmea, Éris, a Discórdia. Daí também nasceu Hefestos, o padroeiro dos ferreiros, caldeireiros e oleiros, que mais tarde aprisionou sua mãe Hera em um engenhoso trono, com braços que se fechavam a seu redor, porque não acreditou que ela o houvesse gerado sozinha, sem a intervenção direta de Zeus. A deusa permaneceu em cativeiro até que Dionísio embriagasse o coxo Hefestos e o levasse de volta ao Olimpo para que libertasse Hera e se tornasse seu aliado a partir de então. E nasceu ainda Hebe, a mais moça e associada, por sua concepção peculiar, a uma alface, que foi copeira dos olímpicos até casar-se justamente com Héracles.
Cansada dos petulantes excessos de Zeus, Hera conspirou contra ele com Poseidon, Apolo e os demais olímpicos, com exceção de Héstia, acreditando-se superior ao Pai dos Céus tanto em argúcia como em autoridade. Surpreendendo Zeus adormecido em seu leito, os rebeldes imobilizaram-no amarrando-o cem vezes com cordas de couro cru, pretendendo dar um golpe de Estado. Tendo dominado e escondido o raio, celebraram seu triunfo com insultos e troças, sem dar escuta às ameaças do Pai dos Céus. Mas enquanto deliberavam sobre o nome de quem deveria tornar-se seu sucessor, a discussão foi ficando cada vez mais acalorada, os ânimos da família divina foram-se exaltando e sobrevieram contendas tão ferozes que chegaram a fazer tremer o Olimpo. A prudente Tétis previu o estourar de uma guerra civil e, para evitar a catástrofe, correu em busca de Briareu, um dos gigantes, para que viesse em seu socorro e empregasse simultaneamente seus cem braços a fim de desamarrar o cativo antes que os demais deuses pudessem acorrer para impedi-lo.
Por haver encabeçado a conspiração, Zeus pendurou Hera no firmamento com um bracelete de ouro em cada pulso e uma bigorna pendente de cada tornozelo. Apesar de seus gritos lancinantes, ninguém se atreveu a intervir para não exacerbar a cólera de seu chefe que, com raio ou sem ele, era perfeitamente capaz de distribuir castigos aqui e acolá. Condenados a construir a cidade de Tróia, Poseidon e Apolo foram enviados a servir ao rei Laomedonte, e Hera só pôde ser libertada quando os demais olímpicos, a contragosto e entre as habituais pendengas da família divina, juraram fidelidade e obediência a Zeus.
A história de Hera se dissipou, desde então, nos pequenos assuntos com os quais cada mulher repete na intimidade os ciclos de vingança e revolta marital que, finalmente, dariam margem ao estabelecimento do patriarcado característico de nossa cultura.
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